sábado, 26 de setembro de 2009
As fases de cada um
quarta-feira, 8 de julho de 2009
O banco de leite de Anita
Anita tem três meses completos. Ela já fez sua primeira viagem de carro, já dá boas gargalhadas, já dançou forró e por pouco não pulou uma fogueira. Mesmo não parecendo mais uma bebezica recém-nascida, por aqui tudo ainda tem cheiro de inaugurações.
Aos poucos a vida vai parecendo encontrar uma rotina e o trabalho começa a ocupar mais o meu tempo. De maneira prática, me preparar para sair de casa sem Anita envolve uma organização da casa, da rotina dela, da sua alimentação, a orientação para quem vai cuidar dela durante a minha ausência. No último quesito até que estamos mais tranquilos já que o papai ficará sempre em casa enquanto a mamãe não vem. Será ele a alimentar Anita na minha ausência e isso é um ponto muito importante para nós dois.
Mas sair a trabalho e deixar Anita em casa requer uma preparação emocional e psicológica ainda mais delicada. Aos três meses de idade ela ainda vive como se mãe e filha fossem um corpo só, e ela não é a única. Ainda tenho necessidade grande de tê-la sempre perto cuidando das suas pequenas descobertas, amparando-a, confortando-a, lhe trazendo a segurança do colo da mãe. Meus hormônios orquestram mensagens por minuto: Seja apenas mãe! Ainda é muito cedo! E a elas tento responder com calma e serenidade.
Nessa primeira viagem ao fantástico mundo da maternagem, me parece muito importante dedicarmos um tempo de exclusividade aos filhos nesse início da vida. Faço questão de registrar que na próxima gravidez me organizarei para passar um tempo maior em casa.
Mas voltando a questões práticas:
Uma coisa me parece clara: as mães devem mesmo sofrer mais que os bebês ao sairem de casa, pelo menos em casos como o nosso em que Anita ficará acolhida no ambiente de carinho que preparamos para vê-la crescer. Me resta então, deixar a ansiedade e angústia de lado, encarar a vida que nos é dada a viver e fazê-la o melhor que posso.
O ponto mais delicado de tudo isso é sem dúvida a amamentação exclusiva. Como mantê-la estando fora de casa? A primeira coisa é recorrer a todos os utensílios disponíveis: Bombas de extração de leite (manual ou elétrica), copinhos com bico de silicone, mamadeiras, potinhos de vidro, chupetas, etc. Tem de tudo ao gosto do freguês.
Para mim o mais adequado foi a bomba elétrica e uma mamadeira da marca Avent que possui bico ortodôntico e regula o fluxo de leite, criando uma dificuldade próxima a que o bebê encontra ao sugar o peito da mãe. Juntei os potinhos de vidro e as informações de como coletar e armazenar adequadamente o leite materno. Com tudo em mãos, parti para a operação.
Conversando com outras amigas descobri que tirar leite para armazenar não é uma tarefa tão simples. Ansiedade, frustração, stress… muitos fatores levando à desistência. A minha primeira experiência foi cercada de expectativa e milhões de dúvidas. Acho que desde o nascimento de Anita nenhuma outra experiência tinha me deixado tão insegura. Se Anita mama em livre demanda tenho que conciliar a ordenha do leite com os seus horários irregulares de mamada, para garantir que haja leite disponível para a pequena.
Para algumas mulheres a produção de leite supera a demanda do bebê, tornando a tarefa de ordenhar leite para estocar uma tarefa simples. Para a maioria das mulheres, no entanto, a produção se adequa à demanda do bebê e por isso a quantidade que se consegue ordenhar é pequena e isso gera uma frustração. Eu mesma cheguei a pensar que levaria uma semana para conseguir tirar a quantidade necessária para uma mamada de Anita. Mas é justo nesse momento que devemos ter mais tranquilidade e persistir na empreitada.
Se a sucção estimula a produção de leite, a utlização da bomba no início serve mais para estimular o aumento da produção do que para ordenhar propriamente. Quando entendi isso foi um alívio geral. Usar a bomba mais de uma vez por dia passou a ser um exercício com objetivos futuros. Claro que toda quantidade de leite coletada nesse primeiro período é devidamente armazenada, afinal a preciosidade dele é diretamente proporcional à dificuldade de obtê-lo. Mas aos poucos o corpo vai se encarregando de mandar mais leite e depois do bebê saciado temos leite à vontade para tirar e guardar.
As dicas sobre o melhor momento e técnicas para ordenha são diversas, mas todas insistem na importância de nos mantermos tranquilas e obstinadas, pois construir um banco de leite leva tempo.
Termino com uma frase de Raduan Nassar que muito me emociona: só o tempo nos dá a justa natureza das coisas.
Para Dani e Melibai, pela ajuda essencial.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Confiar desconfiando
Há pouco tempo atrás fomos bombardeados pela iminência de uma pandemia sensacionalista criada pela mídia. Antes que o vírus da gripe suína chegasse ao recanto mais ermo do Brasil, conforme anunciavam em todos os jornais, pesquisadores de diversas partes do mundo já haviam alertado que o índice de mortalidade desse tipo de gripe era proporcionalmente menor do que o da gripe “comum”, e que as centenas de mortes anunciadas no México deveriam ser estudadas com cautela para certeza do diagnóstico. Quando já não havia mais dados para sustentar o pânico criado para vender jornais e aumentar audiência, Bonner de um jeito quase melancólico confessou no Jornal Nacional: estava comprovado que a gripe suína não era aquilo que eles vinham pintando. Das centenas de mortes no México, poucas tinham relação exclusiva com o vírus, muitas doenças respiratórias em estado grave, pneumonias e outras doenças levaram a chancela de gripe suína.
Só o fato de pensar em uma gripe que evolui em poucos dias até a morte, arrepia qualquer mãe e as mais apressadas já correm ao posto de saúde: será que já não posso vacinar meu filho contra a gripe suína?
Antes de Anita aparecer por aqui eu já desenvolvia certa descrença na pauta de notícias dos meios de comunicação. O fato de ter estudado isso colaborou para entender a maquinagem atrás das roupas bem cortadas de apresentadores de telejornais, sem falar em absurdos editoriais mais conhecidos, como o da Revista Veja. A verdade é que para emitir qualquer parecer sobre as questões da nossa sociedade, precisamos ter uma grande capacidade crítica para questionar a informação que nos é dada. Desse ponto voltamos para minha pequena filha.
Antes dela, eu sabia alguma coisa sobre bebês. Muito pouco. Quando engravidei, minha mãe passou a me munir de informações sobre esse novo mundo, e tê-la como companheira nesse processo foi muito especial. Mas sempre havia uma dúvida a mais. Dona de um temperamento inquieto, comecei a me perguntar: quais serão as diversas formas de cuidar de um bebê? Qual vai se adequar às minhas idéias e modos de vida?
Quando comecei a pesquisar sobre diversos aspectos que cercam a chegada de um filho, nem de longe desconfiava que tomaria decisões que hoje defendo veementemente. Fui tentada a ter um posicionamento claro sobre cada escolha a respeito da minha filha, e isso me fez seguir como uma loba cada rastro de informação. Quando me vi lendo um relatório de um congresso sobre rinite na Suécia que percebi que estava pirando. Informação tem limite. Nesse momento, recuei para dar espaço à intuição materna que já tomava conta de mim aos 7 meses de gravidez.
Como mãe, acho fundamental termos a capacidade de questionar esse ou aquele comportamento, um ou outro caminho que nos é dado, para optarmos pelo que mais satisfaz nossas convicções e nosso modelo familiar. No mundo em que os interesses estão mapeados e onde a mídia e a indústria farmacêutica criam verdadeiros pandemônios para faturar sempre mais, precisamos mais do que nunca nos posicionar de forma crítica frente a tudo isso. Para tudo há um lado B, e perceber isso é importante para desconstruir mitos que nos são passados como intocáveis.
A minha mãe continua sendo o esteio da forma como crio minha filha, mas nem preciso dizer que discordamos em inúmeros pontos, afinal naquela época o capitalismo não beirava um colapso, o câncer não assolava a humanidade, não consumíamos tantos produtos industrializados, médico não tinha medo de doença, e pandemia bem que poderia ser o titulo de uma música de Genival Lacerda.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
All you need is love
O papel da mãe nesta geração que vivemos sem dúvida merece um post, melhor, acho que merece uma tese. Faz tempo que quero escrever sobre isso.
Faz relativamente pouco tempo que a mulher se afirmou profissionalmente, conquistando a independência financeira e pessoal, cuidando da sua realização fora do ambiente doméstico e longe dos afazeres do lar. A geração de mulheres que viveu sistematicamente essa batalha abandonou o modo de vida da dona de casa e em função disso, muitos aspectos da maternidade foram deixados de lado. A amamentação não era uma questão tão relevante já que a mulher não dispunha de tempo em casa e no mercado haviam substitutos para o leite materno. Muita coisa aconteceu até chegarmos aqui. Fazendo um recorte do meu círculo de amizade e adjacências ( não seria boba de generalizar ) percebo mulheres ligadas à sua realização profissional, ligadas ou não a algum companheiro fixo, com interesses diversos que envolve desenvolvimento intelectual, atividades físicas, busca de equilíbrio emocional, independência financeira e um monte de outras coisas que ocupam nosso tempo entre boas noitadas de diversão. Nesse contexto surge a maternidade, a vida vai então ganhando novos contornos.
Sinto que nesta geração de mulheres, há um reencontro com a maternidade e as diversas nuances da maternagem. No primeiro momento, abdicamos dos cuidados com a casa, nos afastamos do trabalho, abandonamos estudos, leituras, atividades físicas e o relacionamento amoroso vira um lugar perdido entre netuno e o sub-planeta plutão. Todo o foco de atenção está nos nossos filhotes e no cuidado com eles. As babás, quando já estão incorporadas nesse momento, têm papel coadjuvante enquanto a mãe se ocupa de todas as funções e questões que envolvem esse momento tão delicado. Entre os direitos (conquistado aos poucos) da nova mulher, está o de permanecer em casa pelo tempo necessário para assegurar o desenvolvimento físico e emocional do filho no início da vida. Amamentação exclusiva virou uma bandeira. Excesso de colo, de carinho, abordagens psicológicas e nesse percurso diversas maneiras de incorporar o filho aos antigos afazeres transformados pela nova vida. E a vida nova, para além da maternidade, traz muitos desafios.
Ficar em casa rodeando o filhote é o melhor que poderia haver. Mas já não somos só donas de casa. Aos poucos vamos retomando as atividades e conciliar as diversas facetas assusta e coloca novas questões, prioridades, eu diria. A mulher agora se divide entre a casa, o filho, o trabalho, o estudo, o relacionamento, as atividades físicas e muito tempo depois volta a pensar em diversão. Sim, porque com o filho, a casa exige novo ritmo, organização britânica com horários cumpridos, hábitos alimentares saudáveis, e outros fatores que desenharão uma rotina. Para isso precisamos do auxílio de funcionárias competentes e dedicadas.
Bom, encontrar uma babá (pelo menos aqui em Salvador) é uma missão quase impossível, requer uma grande rede de contatos e acima de tudo muita sorte. Confiar a guarda momentânea dos nossos filhos a outra pessoa é um tema tão delicado que merece um outro post.
Organizando a casa e a rotina dos nossos filhos, partimos para todo o resto: a retomada do trabalho e suas agruras diárias, a necessidade de se manter atualizada através de cursos e especializações (a remuneração pelo trabalho deve aumentar em progressão geométrica), o cuidado com o relacionamento já que a paixão naturalmente vai serenando, a importância da atividade física que mantém o corpo em forma e a mente equilibrada, estimulando a vaidade saudável... estou cansada só de escrever.
É que listando assim, me parece que a situação vai ganhando arestas dramáticas, afinal como dar conta de tudo isso sendo uma só?
Ao mesmo tempo que o contexto atual nos coloca em cheque ao solicitar aptidões diversas e simultâneas, a mulher ao se transformar em mãe desenvolve de maneira incrível a sua intuição, além de se ver fortalecida para enfrentar o desconhecido. Há um motivo maior para o simples acordar todos os dias, por mais que ele seja difícil. A mulher, depois de mãe, vira uma guerreira.
E é com a disposição que outrora não tínhamos, que vamos encarando as diversas fases desta vida que desejamos e que se apresenta pouco a pouco. Na sociedade da informação, dispomos de muitas ferramentas para recriar modos de sobrevivência. O google funciona como secretária ou pediatra. Com a mudança no perfil das mulheres, o homem também assume novos papéis e assim um novo modelo de família vai se desenhando.
Com compreensão, força e serenidade, acredito que seguiremos felizes, por mais que às vezes o caminho trilhado seja tortuoso. E para terminar, o amor. O mundo em geral precisa de mais amor, that's all we need.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Essa questão do tempo...
sábado, 23 de maio de 2009
O tempo e a natureza das coisas
No início, com um recém-nascido, nem sempre estamos habituadas a lidar de forma amena com este tempo. Nos oferecem padrão para tudo, e qualquer coisa fora disso é motivo para preocupação. Passamos então a cronometrar o tempo e vivemos em função dele. Quando abdicamos do relógio e deixamos o tempo seguir seu curso naturalmente, fica mais difícil lidar com o próprio tempo. Ou pelo menos com a idéia que tínhamos dele anteriormente.
Quando Anita dorme, confesso que não sei o que fazer. Se como, se tomo banho, se me coço, se assobio ou chupo cana. Normalmente eu acabo comendo, trabalhando, chupando cana, assobiando, digitando e ninando anita porque ela logo acorda. Tem dias que eu não consigo fazer nada... fico de bobeira vendo o tempo passar. Nesses dias, ela costuma dormir muito, e então espero que o tempo passe depressa para que eu possa ocupá-lo com o cheiro da minha filha. O tempo longe dela... esse ainda é um abismo para mim, que no máximo fui sozinha ao mercado na frente da minha casa.
Assumir a imprevisibilidade do tempo de que um bebê precisa para comer, para dormir e até para fazer cocô, faz com que a passagem do tempo venha desenhar um esboço de rotina e não o contrário. Mas isso requer preparação e sobretudo, paciência. Hoje em dia, quando a velocidade de um click do mouse reconfigura a noção de tempo e de espera, quando ainda aplica-se a máxima que "time is money", só mesmo tendo nossos filhos nos braços para sentir a sensação de que tempo, finalmente, parou.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Ele é meu rapaz!
Meu quadragésimo oitavo dia das mães
Dia das mães (e dos pais) sempre me pareceu uma convenção fria com uma desculpa indefensável. Normalmente é o dia em que troca-se o liquidificador velho, inaugura-se uma máquina de lavar roupas e toda sorte de utensílios domésticos que fazem a alegria de qualquer mãe nos comerciais de TV.
Eis que chegou a minha vez.
No domingo, de fato nada foi muito diferente dos outros dias, exceto a descoberta de um entendimento que antes não havia. O dia das mães na realidade é dia dos filhos. Eles dão sentido a essa experiência materna, eles transformam a condição da mulher e trazem luz e beleza para nossas vidas, a eles dedicamos o amor absoluto e deles é que esperamos a compreensão, e a felicidade plena. Já que a onda é presentear, no segundo domingo de maio deveríamos comemorar a existência dos nossos filhos, a chegada deles, uma espécie de segundo aniversário.
Para uma mãe, os presentes são diários e em nada se parecem com as ofertas que saltam nas propagandas. Cada aumento de peso de Anita é um presente dos bons para mim, seus sorrisos são pequenas jóias que ganho diariamente, a evolução do olhar, a emissão de sons que logo serão palavras, o cheiro detrás da orelha... sou surpreendida todos os dias com pequenos gestos que afirmam a minha condição de mãe, inundando o meu coração de felicidade.
Me emocionei lendo o post de Carol sobre a festinha na escola de Ian em homenagem a uma dezena de mulheres bobas, emocionadas, de frente a verdadeiros anjinhos que por certo acham que todos os dias do ano são dias das mães, afinal sem elas a vida não teria sentido algum.
Na realidade, no segundo domingo de maio comemorei o meu quadragésimo oitavo dia de mãe, e do alto dos seus 48 dias de vida Anita me presenteia com o amor refletido nos seus dois olhinhos de jabuticaba.